- 01Principais pontos
- 02Como Soho muda depois que a noite cai
- 03Os pubs que valem a pena
- 04Bares: escondidos e nem tanto
- 05Old Compton Street e a cena LGBTQ+
- 06Música ao vivo à noite
- 07Comida de madrugada
- 08O que Soho de noite não é (e o que evitar)
- 09Como chegar e como voltar
- 10Quais são as principais dicas da London Insiders para uma noite em Soho?
Caminhe por Soho de noite e algo muda. As cafeterias fecham as portas, os turistas rareiam, e o bairro para de representar. O que sobra é a coisa de verdade: neon sobre paralelepípedos molhados, portas que se abrem para barulho e calor, uma área minúscula que faz isso, com regularidade, há quase três séculos.
Nenhuma outra parte de Londres concentra tanta coisa em tão pouco espaço. Pubs onde Orwell bebia. Clubes de jazz que funcionam sem interrupção desde 1959. Bares gays que resistiram a coisas que nenhum bar deveria precisar resistir. Speakeasies escada abaixo, sem placa na porta. O Bar Italia às 2h da manhã, porque não existe nada igual em lugar nenhum.
Este guia mostra o que Soho de noite realmente é, não a versão repetida em toda lista genérica. Isso significa recomendações honestas, algumas coisas para evitar, e a história que você precisa conhecer para entender por que esse bairro fica diferente depois que o sol se põe. Se quiser a história completa de como Soho se tornou o que é hoje, nosso guia História de Soho: do Vício Georgiano ao Polo Criativo conta tudo em detalhes.
Como Soho muda depois que a noite cai
De dia, Soho pertence a todo mundo. Escritórios de mídia, produtoras de cinema, cafeterias cheias de notebooks. No começo da noite, as calçadas na frente dos pubs começam a ficar cheias. Por volta das nove horas, a transformação está completa.
O público também muda. Quem trabalha em escritório já foi para casa ou está mais fundo dentro dos pubs. A galera do teatro sai da Shaftesbury Avenue por volta das dez. Mais tarde ainda, são as pessoas que moram aqui, que sempre moraram aqui. As que sabem qual bar tem a mesa de canto, qual cozinha fica aberta depois da meia-noite, em qual porta bater.
Soho de noite não é Shoreditch. Não é uma cena. Não tem uma estética específica, nem dress code, nem um momento definido. O que tem são camadas. Você pode tomar uma das melhores pints de Londres num pub vitoriano e, três minutos depois, estar num bar de coquetéis que nem aparece no Google Maps. Essa densidade, somada ao fato de que tudo é a pé, é algo que nenhuma outra parte da cidade replica.
As ruas que valem a pena conhecer depois que escurece em Soho: Dean Street corta o bairro pelo meio, com pubs e restaurantes dos dois lados. Frith Street é mais tranquila, e ganha com isso. Old Compton Street é a que fica agitada por mais tempo. Greek Street tem algumas das portas mais interessantes para atravessar.
Os pubs que valem a pena
Soho de noite não tem falta de pubs, e boa parte deles é razoável sem valer um desvio de rota. Três, porém, valem a viagem.
O French House, na Dean Street, é o lugar que as pessoas têm em mente quando dizem que Soho tem alma. Está lá desde 1891. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi a base de Charles de Gaulle em Londres. Francis Bacon bebia aqui com frequência. As regras não mudaram: cerveja é servida só em meia pinta, telas são proibidas, e sentar num banco reservado é coisa de quem nunca esteve lá antes. Os frequentadores vêm há décadas e vão deixar isso claro, com educação. Vá assim mesmo. Peça vinho, ache um canto e fique o tempo que deixarem.
O Dog and Duck, na Bateman Street, é o outro com história de peso por trás. Construído no terreno onde ficava a casa do Duque de Monmouth, o prédio vitoriano atual é de 1897. George Orwell celebrou aqui quando A Revolução dos Bichos foi comprada por uma editora americana. O interior quase não mudou: azulejos vitrificados, painéis de mogno, um mosaico de um cão e um pato no piso da entrada. É um pub de verdade, do jeito que importa, sem se fazer de especial por isso.
O Blue Posts, na Berwick Street, é diferente dos dois. Mais barulhento, mais jovem, favorito dos designers e criativos da região. Fica no meio do antigo trecho de mercado da Berwick Street, e numa sexta-feira à noite a calçada na frente enche rápido. É o tipo de pub que se torna o programa da noite inteiro em Soho, e não só o esquenta.
Se esses três estiverem cheios, o Coach and Horses, na Greek Street, é a alternativa honesta para uma noite em Soho: sem grandes refinamentos, cardápio vegano, e uma longa história como ponto de encontro de jornalistas locais e personagens de Soho há décadas.
Bares: escondidos e nem tanto
Os melhores bares de Soho de noite costumam não se anunciar.
O Cahoots é o mais fácil de explicar para quem nunca foi: uma estação de metrô dos anos 1940, recriada no porão do Kingly Court, com coquetéis 'racionados', relíquias da guerra e uma teatralidade exagerada que deveria cansar mas, de algum jeito, não cansa. Reserve com antecedência. Ele enche.
O Disrepute, na Kingly Street, é o oposto. Sem tema, sem conceito, só um speakeasy de meados do século passado, bem projetado, que leva os drinques a sério. Tem uma parte só para membros, mas é aberto a não membros com reserva. Os coquetéis são bons o bastante para atrair gente mesmo sem o mistério em volta.
O Vault é mais difícil de encontrar. Fica atrás do bar de whisky Milroys, na Greek Street, escada abaixo, atravessando uma porta estreita. Poucas mesas numa sala subterrânea, com uma carta de coquetéis completa. Se for em grupo de mais de duas pessoas, reserve. Quem chega sem reserva costuma ser dispensado.
Old Compton Street e a cena LGBTQ+
Old Compton Street é onde a identidade de Soho se concentra, e isso fica mais claro do que nunca quando a noite chega. É o centro da comunidade LGBTQ+ de Londres desde os anos 1980, e continua sendo o trecho de calçada mais barulhento e mais vivo do bairro depois que o sol se põe.
O Yard, na Rupert Street, é a escolha de quem conhece. Um bar num pátio vitoriano, de verdade ao ar livre, com um calor humano difícil de replicar. Atrai um público misto sem forçar isso, o que é mais raro do que parece. Se você só for entrar em um bar nesse trecho, que seja esse.
O Comptons está na Old Compton Street desde meados dos anos oitenta. Continua parecendo um pub, não uma balada, e é parte do motivo pelo qual sobreviveu. Cerveja artesanal de verdade, painéis de madeira, e um segurança que redireciona com gentileza casais confusos, pré-teatro, procurando um gin-tônica. É ele mesmo, sem concessões.
O Admiral Duncan, um pouco mais adiante na Old Compton Street, é o que carrega o peso da história. Funciona desde pelo menos 1832. Em 30 de abril de 1999, um neonazista chamado David Copeland detonou uma bomba de pregos dentro do pub. Três pessoas morreram: Andrea Dykes, de 27 anos e gestante, seu amigo John Light e Nick Moore. Outras 79 ficaram feridas. Foi a terceira de três bombas em duas semanas, as outras direcionadas à comunidade negra em Brixton e à comunidade bengali em Brick Lane. Copeland foi acusado de assassinato dois dias depois.
O Admiral Duncan reabriu nove semanas depois do ataque e nunca mais fechou. O atentado mudou a relação entre a comunidade LGBTQ+ de Londres e a Polícia Metropolitana, elogiada pela forma como lidou com as consequências. Todo ano, em 30 de abril, há uma vigília em frente ao pub. É possível passar por ali sem saber nada disso. Passar sabendo é diferente.
Música ao vivo à noite
O Ronnie Scott's, na Frith Street, abriu em 1959 e nunca perdeu o ritmo. É um dos melhores clubes de jazz do mundo, o que é fácil de dizer e, nesse caso, também é verdade. O ambiente é intimista, a acústica é realmente boa, e o Late Late Show, depois da meia-noite, vale ficar mesmo se o nome do palco não for conhecido. Reserve com antecedência. Os ingressos esgotam com frequência.
O Ain't Nothin' But, na Kingly Street, é a alternativa quando o Ronnie's está fora do orçamento ou esgotado. Blues e soul, ao vivo todas as noites, sem acabamento corporativo. O tipo de lugar onde estranhos acabam cantando juntos sem que pareça forçado. É um dos points de música ao vivo mais subestimados de Soho de noite, e os guias que o ignoram acabaram mantendo ele exatamente como deveria ser.
O 100 Club, na Oxford Street, logo ao norte da fronteira de Soho, também vale conhecer. Funciona desde 1942. O Sex Pistols tocou lá. Os Rolling Stones também. A sala quase não mudou e a programação varia, então vale checar antes, mas se tiver algo que valha a pena, o porão é um dos melhores de Londres.
Comida de madrugada
A maior parte do centro de Londres fecha a cozinha às dez da noite. Soho de noite é a exceção.
O Bar Italia, na Frith Street, está aberto desde 1949 e fecha às 5h da manhã. É o lugar onde o bairro inteiro acaba parando, mais tarde ou mais cedo. Torcedores italianos de futebol, gente saindo de balada, músicos depois do show, pessoas que só querem um espresso e um panini às 2h da manhã sem que ninguém ache estranho. Quando a Itália ganhou a Copa do Mundo em 2006, mais de 5.000 pessoas se reuniram na porta. A mesma família toca o bar desde o início. Não tem nada complicado nisso, e é exatamente por isso que funciona.
O Balans, na Old Compton Street, fica aberto até 5h da manhã em dias de semana e 6h nos fins de semana. Mais brasserie do que bar, com mesas de verdade e cardápio completo. Hambúrgueres, café da manhã, coquetéis. Está nesse trecho há tempo suficiente para fazer parte da paisagem, e enche daquele jeito específico de madrugada em que ninguém tem pressa de estar em outro lugar.
Se quiser algo rápido e barato, o Maoz, na Old Compton Street, serve falafel até tarde. Você monta o seu, fresco, sem enrolação. A fila anda rápido.
O que Soho de noite não é (e o que evitar)
Saber o que evitar é tão útil quanto saber aonde ir, principalmente para quem está planejando a primeira noite em Soho.
Bicitáxis. Evite completamente. Eles se concentram perto da Shaftesbury Avenue e nas bordas de Soho, e não têm nenhuma regulação de peso. O motorista pode cobrar o que quiser no final do trajeto. Os turistas descobrem isso tarde demais. Vá a pé ou pegue um black cab.
Os bares logo ao redor de Piccadilly Circus se estendem até a borda oeste de Soho e são uma coisa completamente diferente. Barulhentos, caros, feitos para quem não conhece a região. Parecem Soho, mas não são. Andar dois minutos para o norte ou para o leste já faz diferença.
A indústria do sexo que marcou parte de Soho durante boa parte do século vinte praticamente desapareceu. Ainda restam algumas lojas licenciadas na Brewer Street, mas quem chega esperando a antiga reputação vai descobrir que ela não existe mais nesse formato. O bairro seguiu em frente. Isso não é perda nem vitória, é só um fato. Para um retrato mais completo do que Soho é hoje, o guia completo do bairro é o ponto de partida.
O Soho Theatre, na Dean Street, não é armadilha para turista nenhuma. É excelente e vale uma noite só para ele. A armadilha é assumir que, por estar no West End, o teatro mais próximo é a escolha certa. O Soho Theatre faz textos novos, comédia e cabaré que as grandes casas da Shaftesbury Avenue não fazem. Confira a programação antes de ir direto para um musical.
Como chegar e como voltar
Chegar e voltar de Soho de noite é simples. O bairro fica a poucos minutos a pé de quatro estações de metrô: Tottenham Court Road, Oxford Circus, Leicester Square e Piccadilly Circus. O metrô para por volta da meia-noite, dependendo da linha, mas a Elizabeth line e o Night Tube funcionam até mais tarde nas sextas e sábados.
Os ônibus noturnos são frequentes e confiáveis se você perder o último trem. As linhas de ônibus 24 horas que cruzam o centro de Londres cobrem a maior parte dos lugares que você vai querer ir.
Se for dividir um táxi na volta, use um black cab ou um minicab licenciado por aplicativo. Não entre em veículo sem licença na rua, e não deixe um bicitáxi te levar a lugar nenhum.
Quais são as principais dicas da London Insiders para uma noite em Soho?
A melhor forma de aproveitar Soho de noite é já conhecer o bairro de dia. Soho recompensa quem conhece os detalhes: qual viela corta até a Frith Street, qual pub tem a sala mais tranquila no fundo, qual porta que parece não ser nada leva a algum lugar que vale a pena. Se quiser sentir isso antes de a noite começar, participe do nosso Free Soho Walking Tour. Ele acontece toda semana, é gratuito, e cobre a história, os personagens e os cantos do bairro que a maioria das pessoas passa direto sem ver.
Se você está planejando uma noite de saída, nosso guia dos melhores bares de Soho mostra aonde ir depois.
Prefere história junto com a cerveja? Nossa lista dos pubs mais antigos de Londres é um bom desvio.